Remando e superando desafios até Porto Seguro

Chegar a Ilhéus no dia 12/11 foi um porto seguro: temos a Marinha do Brasil como apoio logístico. Do dia 13 ao dia 17, desabou uma grande tempestade, com vento sul de até 33 nós e ondas de dois metros. Ficamos abrigados no hotel de trânsito da Marinha, aguardando uma oportunidade mínima para seguir adiante, e ela veio.

No dia 18, zarpamos, desconfiados, para uma difícil missão: chegar em Belmonte no dia 21, enfrentando grandes ondas e bocas de barra assustadoras.

Foram 35,63 km, de Ilhéus a Acuípe; 35,12 km, até a ilha de Comandatuba; 34,53 km até Canavieiras; e 29,62 km até Belmonte. Quatro dias com tempo fechado, mar grosso e marrom, picado, ondas fortes e arrebentações dificílimas.

Após a passagem da frente fria de sul, ficou um swell (ondulações) forte de leste, que chamamos de “encardido”, pois permanece por longo período. Com o mar nessas condições, o maior desafio foram as bocas de barra na região mais irrigada por rios grandes da Bahia.

Com o “swell encardido” de leste, as ondas arrebentavam longe e precisamos arribar bastante, nos afastando da costa. Capotar lá fora nem pensar, poderia nos colocar em “maus lençóis”… Então, remamos com muita cautela nesses lugares, com mar muito mexido e ondas de popa e través, dando grandes rasteiras em nossos caiaques.

Tensão

Mas foi na Barra de Canavieiras nosso momento mais tenso, com confluência de muitos rios, destaque para o Salsa e o Pardo. Enorme e com ondas grandes, tornou-se um “monstro” a ser superado.

Um quilômetro antes já sentíamos o poder dela: a cor da água se transformara em marrom chocolate e o balanço mais parecia um liquidificador batendo. De longe avistamos a grande e longa arrebentação e tivemos que arribar verticalmente para dentro do oceano, uns seis km, e contorná-la por fora.

Sentimos medo, não podíamos capotar e a longa remada, repleta de tensão e atenção, era “na unha”. Nossa comunicação se restringia apenas em avisos de grandes ondas diagonalizadas que vinham de popa e través, e que nos davam enormes rasteiras, exigindo perícia no controle dos caiaques. Foi um grande alívio quando a superamos.

Em Belmonte, ficamos um dia a mais, em função de um forte vento sul que impossibilitou a saída. Aproveitamos para fazer um balanço das questões ambientais, às quais nos propomos a realizar.

“Sequelas” do óleo

Na viagem realizamos entrevistas marcantes com as comunidades pesqueiras tradicionais, ouvindo muitos relatos emocionantes em relação ao impacto causado pelo derramamento de óleo de 2019.

Muitas famílias ficaram em grande dificuldade, sem poder pescar para consumir, tampouco para vender, sem contar o drama que viveram ao botar as mãos diretamente no óleo, muitas vezes sem equipamentos adequados e colocando em sério risco a saúde. Desespero, choro e angústia de não saber o que ocorreu, que óleo era aquele e se há risco de ocorrer novamente.

Para nós tem sido emocionante realizar esse trabalho, sabendo que, de certa forma, estamos recolocando essas comunidades no mapa e mostrando para a rede Rebicop e ao Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (Ufba) quais foram as zonas mais afetadas e impactadas.

A partir de Belmonte encontramos mares mais serenos, um merecido descanso para nossos nervos. No dia 24 remamos 28,6 km para um paraíso chamado Mogiquiçaba e lá ficamos maravilhosamente presos por mais um dia de forte vento sul. Uma vilazinha de pescadores banhada por mar e pelo lindo rio Preto, que nos convidou a fazer trilhas repletas de banhos e imagens maravilhosas.

No dia 26 seguimos em “mar de almirante” até a bela vila de Santo André, às margens do rio João de Tiba – e lá vimos o amanhecer mais bonito da expedição até então.

Acolhida

Finalmente, sábado passado remamos até Porto Seguro, uma remada emocionante, afinal estávamos chegando no destino da humilde expedição realizada em 2014, quando remamos do Morro de São Paulo até ali, com equipamentos precários, sem dinheiro, incógnitas, movidos apenas pela paixão e pelo desejo de viver a vida do mar.

Ao nos aproximarmos da barra do rio Buranhém fomos cercados por muitas embarcações – uma lancha da Secretaria de Meio Ambiente do município, duas privadas, junto a duas lanchas e uma motonáutica da Marinha do Brasil. Fomos escoltados até a delegacia da Marinha, ao som de altas sirenes das embarcações oficiais e sob olhares atentos dos turistas das balsas que atravessavam entre Porto Seguro e Arraial D’Ajuda. Confesso que foi difícil conter as lágrimas.

Sei que ainda falta muito até o Rio de Janeiro. Mas me alimento e me fortaleço, por enquanto, na grande alegria de estar realizando esse sonho e de ver tantas pessoas bondosas sonhando conosco e nos auxiliando ao longo desse caminho.

A todos vocês, nossa mais tenra gratidão…

Fonte: Atarde

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *